CENA 2 - CONCEPÇÃO DRAMATÚRGICA E ESTÉTICA - Abikus
Vamos determinar como início da segunda cena a canção Muilo, de Omar Sosa e Tiganá Santana, nela estabelecemos um diálogo com o texto apresentado por Amorim (2015) ao trazer informações de como a comunidade iorubá entende os abikus enquanto energias infantis. Forças metafísicas que são sinônimo de vida e morte, nessa sociedade os espíritos abikus são crianças que nascem para morrer ou que têm uma passagem curta pela terra, jovens com vínculos fortes com o mundo espiritual que morrem prematuramente.
Para os iorubanos as crianças que tiverem uma curta passagem pela terra estabelecem um espaço simbólico com as árvores, sendo elas os espaços que essas energias escolherem para sua morada.
A cultura iorubá também estabelece uma conexão subjetiva, oral e ancestral com o tempo, onde não indicam que mulheres grávidas fiquem à sombra da árvore ao meio-dia ou à meia-noite, pois nesses horários os espíritos têm permissão para sair, e neste momento podem tomar algumas decisões que não agrade às gestantes. Portanto, temos uma questão de ordem cronológica e metasensível que entende o corpo da mulher como aquele responsável por dar a vida ou não, e também por decidir se quer ou não gerar um ser em seu ventre.
Outra relação lexical com os abikus é o fato de uma prática sociosagracional dos iorubanos em depositar oferendas aos pés de Ìròkò, utilizando-se obi (noz de cola), arroz, fios de algodão, folhas de màrìwò sendo comum que essas oferendas sejam entregues por crianças.
Deste modo, proponho que essa cena seja centrada mas divertida, calma mas dinâmica, sendo uma momento de conexão entre as bailarinas e os abikus, elas serão as raízes dessa árvore que é morada da vida e da morte, metaforicamente seus corpos são os abikus que saíram da árvore para dançar. Um sopro da vida trazendo um seriedade para as movimentações, sem que deixem de ser acalentadoras, alegres e com uma energia gostosa.
Destaco quue a canção Muilo, é marcada por uma fusão de elementos tradicionais africanos e a sofisticação do jazz, criando uma atmosfera sonora que evoca sentimentos de ancestralidade, mas em um contexto de alegria.
Em termos de mensagem, Muilo explora a “energia” das forças espirituais, evoca um sentido de reverência pelas raízes culturais e pela natureza espiritual que une as pessoas e as tradições. Ao dançar pensa em uma sensação de união e de busca por um vínculo mais profundo com as origens e com o cosmos.
Portanto, a cena não apenas transmite uma energia vibrante e emocional, mas também é um convite a explorar as conexões profundas que existem entre o passado, o presente e o futuro, por meio da movimentação mais enérgica.
Essa cena começa na canção Muilo e se pendura pela canção Ténpu ki bai de Mayra Andrade. A canção Ténpu ki bai, é interpretada por uma cantora cabo-verdiana, que transmite em sua poética uma reflexão sobre o tempo e a sua passagem, trazendo à tona sentimentos de saudade, introspecção e valorização das experiências vividas. Então, na dança vamos emergir essas sensações. A expressão “ténpu ki bai” pode ser traduzida como "o tempo que vai" ou "o tempo que passa", o que já sugere a principal temática da música: a efemeridade da vida e a inevitabilidade do fluxo do tempo.
Na dança vão se valer de uma linguagem poética para explorar a ideia de que, embora o tempo avance sem parar, ele também carrega consigo memórias e ensinamentos, os quais podem ser tanto dolorosos quanto reveladores. A dança precisa refletir sobre as mudanças que o tempo provoca na vida das pessoas, em suas relações e nos contextos culturais. Ao mesmo tempo, há uma beleza melancólica em reconhecer que, embora o tempo seja fugaz, ele também é repleto de significados que se acumulam em nossas histórias pessoais.
Citação:
Kileuy e Oxaguiã (2014) mostram que para a sociedade iorubá os abikus são espíritos infantis que vivem em uma sociedade, o Egbé Orum, e que combinam antes do seu nascimento o momento de retornarem ao Orum. Para os abikus esse retorno é desejado e programado como uma forma de voltar ao seu mundo o mais rápido possível.
Abi é nascer e Iku é a morte, ou seja, os nascidos, os sobreviventes da morte é que são os abikus.
Uma mulher grávida não deve parar embaixo da sombra de uma árvore ao meio-dia ou à meia-noite. Porque eles habitam o corpo das árvores e é nesses horários que eles têm permissão para sair.
https://pequenoencontrodafotografia.com/7a-edicao-exposicoes-roberta-guimaraes-arvore-da-palavra/



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