Corporificação - Dança em si.
O processo de refletir o corpo para consigo, corpo-em-si, colabora para uma dinâmica fundamental na construção do artista e na sua relação com a proposta coreográfica. Isso envolve entender a contingencialidade do seu corpo no processo de montagem, refletindo sobre o seu percurso histórico-social e apropriando-se das competências que estão ligadas a sua trajetória, para então perceber e decidir como adentrar em uma nova jornada que desvela outros espaço semânticos, ancestrais, gnosiológicos que vão compor o seu percurso individual.
A construção do personagem, respectivas nuances e apetências podem acontecer em um fluxo-contínuo durante a montagem, o coreógrafo, o ritmo da trilha, a letra das canções, a proposição de cenário, o figurino, a concepção de maquiagem, os impulsos estéticos do movimento estão em diálogo constante com a bailarina, são energias que se circulam e entrecruzam durante o processo que precisam ser percebidas, pois se configuram um polo irradiador de informação. Estar na sala de ensaio inclui compreender e apreender esse movimento que acontece ao entorno do seu corpo. Se faz necessário ampliar a sua percepção e estado de presença para que a sua sensibilidade não deixe informações relevantes passarem, pois são hiperativas ao processo de construção do seu reduto na corporificação do personagem, que durante o espetáculo está em um estado alterado de presença, em uma espetacularidade ampliada, este estado corporal se constrói na iniciativa individual do artista por compreender que acontece ao seu entorno.
Na dança a perfeição do corpo-em-si é encontrada não no controle, mas na rendição ao controle da própria arte. Um dançarino dirá: “A Dança dança através de mim”. Paradoxalmente, trabalhamos para controlar um meio até que tenhamos controle suficiente para permitir que o meio nos controle. Adentrar em uma nova montagem requer consciência sobre os modos de condução para a emancipação, fortalecimento e construção de sentido do artista que se desdobra na percepção de considerar um discurso sobre a estética negra em processos coreográficos. Partindo da construção, ou melhor, visualizando algumas motrizes da linguagem que perpassam por seu sentidos, que em cena devem estar em cosmogonias expandidas, é que o artista inicia uma metamorfose, uma dinâmica metaestética.



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