Etnocenologia - Fichamento


 Etnocenologia - Fichamento 

Novembro 2024


BIÃO, Armindo. Performáticos, Performance e Sociedade. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1996.



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O fundamento da teatralidade está nessa consciência mais ou menos difusa que a pessoa vai desenvolvendo ao passar dos anos, de que é preciso negociar com a alteridade para satisfazer os desejos. Não exatamente mentir mas, talvez exacerbar, exprimir de uma maneira eficaz o desejo ou o sentimento que se pretende que o outro compreenda. Então, à condição liminal que caracteriza as práticas espetaculares, acrescenta-se uma segunda condição, a dimensão lúdica (Johan Huizinga). O jogo, esta negociação que fundamenta a vida pessoal e social, é outra das características básicas das práticas espetaculares.


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A produção de símbolos reúne algo que é de uma dimensão a uma outra dimensão sígnica, ou, como diz Durand, "o símbolo é a epifania de um mistério", é a aparição de algo que liga, que une uma coisa a outra (daí seu amplo uso religioso). A produção de símbolos é o fundamento metodológico dos meios de comunicação, é a dimensão do real que representa e transporta as experiências e expressões estéticas com todos os riscos inerentes à tradução (traduttore/tradittore). O risco é também a garantia de sua eficácia: é o de remeter a outra realidade, ou a outra língua, sem, no entanto, naturalmente, substituí-la. Essa é a natureza do símbolo, a concretude em uma dimensão sensorial, dominantemente mas não exclusivamente visual, de algo que está em outra dimensão.


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Os ritos e as rotinas do dia-a-dia desempenham-se em função de comportamentos esperados diante das mesmas circunstâncias ou de circunstâncias reconhecíveis pelo imaginário como algo já conhecido (Alfred Schütz). Esses comportamentos são algo sobre o que não se pensa no momento em que acontecem. Pensar sobre a necessidade de se deslocar o peso do corpo para a frente para que o caminhar seja possível é, se não paralisar, ao menos modificar substancialmente o caminhar. Analisar a ação é atribuir-lhe um caráter espetacular e afastar-se da espontaneidade teatral cotidiana.


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As noções de espetacularidade e de teatralidade que proponho são descartáveis porque a contemporaneidade, com seus fenômenos de proliferação telemática e de globalização, "confundem" cotidiano e extracotidiano e recuperam as possibilidades sensoriais que a tradição greco-latina evacuou com a invenção do alfabeto e da imprensa. A invenção do alfabeto, no século V a.C., e a da imprensa, durante o Renascimento, banalizaram uma tecnologia de comunicação de signos simples, quase abstratos, representando todas as possibilidades fonéticas da língua, escrita da esquerda para a direita, organizada de uma forma linear, que permitiu o desenvolvimento racional na tradição do Ocidente e a valorização do sentido da visão.


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