FICHAMENTO - Ewé Igbo: árvores sagradas do Candomblé

 


Dissertação: Ewé Igbo: árvores sagradas do Candomblé no contexto socioambiental


AZEVEDO, Vitor Amorim Moreira de. Ewé Igbo: árvores sagradas do Candomblé no contexto socioambiental. 2015. 131 f. Dissertação (Mestrado em Ensino de Biologia; Biodiversidade e sociedade) - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, São Gonçalo, 2015.


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As religiões de matriz africana apresentam diferentes percepções sobre a biodiversidade, influenciando modos pelos quais os recursos naturais podem ser utilizados no cotidiano da comunidade (PRANDI, 2005). Para essas religiões, a natureza ocupa um espaço de totalidade. Nesse sentido, não existe fragmentação no modo de vida do grupo, ou até mesmo algo que o aproxime ou o distancie do que é real ou invisível, ou seja, não há diferenciação do que é sagrado ou transcendental do que é mundano no cotidiano. Dessa forma, o homem e as divindades, aqui representados simbolicamente na natureza, são sujeitos que podem compor a mesma organização social (MELO, 2007).


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Segundo Theodoro (2010), o termo "Nação" indica os grupos que cultuam divindades provenientes de uma mesma etnia africana. De maneira geral, os cultos negros brasileiros se dividem em três grandes "Nações":

a) Nação Angola que faz referência aos Inquinces provenientes de Angola, Congo e Costa do Marfim, de língua banta e implantado pelos quimbundos e umbundos, que segue o culto Banto;

b) Nação Jêjê do culto Jêjê, que venera os Voduns, de língua fon (jêje), proveniente do antigo Daomé, atual República do Benim, praticado por descendentes da família real do Abomey.

c) Nação Ketu do culto Nagô que reverencia os Orixás, de língua iorubá, proveniente da Nigéria e disseminado pelos iorubás e seus descendentes.

 

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No Brasil são considerados vinte um Orixás, que também são reverenciados na África (PRANDI, 2001). Dentre esses, dezoito são cultuados na cabeça de seus filhos, ou seja, seus escolhidos que, após os rituais de iniciação, irão entrar em transe com o Orixá. São eles segundo Verger (2002, 2012) e Prandi (2001):

Iroko - Senhor da grande árvore, em cuja copa frondosa habitam as misteriosas e temidas conhecedoras de muitos encantamentos. É o Orixá dos campos abertos e dos grandes espaços. As árvores que lhes são consagradas são sempre envolvidas por grandes laços de pano branco que demarcam sua sacralidade.


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A vida vegetal é um dos segmentos mais significativos em qualquer tipo de cultura. Dessa forma, as plantas desempenham um importante papel na sua existência material e social e estão sempre presentes no seu cotidiano (SILVA, 2005). Levando em consideração que a história da humanidade está intimamente aliada à domesticação e uso de plantas, o ambiente construído ou reconstruído pelo homem passou a expressar sua cultura (WORSTER, 1991) e as plantas ritualísticas estão incluídas nesse contexto.


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No Candomblé, a religião é baseada na cosmovisão africana, onde as divindades e a natureza são um único ser. Nesse sentido, conserva a ideia de que sem a valorização da natureza não há como existir a prática religiosa. Isso mostra o esforço em não perder sua visão cultural através do resgate da identidade africana (PARÉS, 2013). Os Orixás estão ligados a, pelo menos, um dos quatro elementos básicos: terra, água, ar e fogo (BARROS, 2011). Santos (2012) afirma que os dezesseis Orixás mais cultuados nos terreiros Ketu estão vinculados a um dos quatro elementos-compartimentos que conferem a maior organização das comunidades. Esses elementos são emanados dos Orixás, sendo que qualquer forma de degradação da natureza é um desrespeito a essas divindades, além de ser contraditória com a prática litúrgica.

No processo histórico brasileiro os negros realizaram dois importantes mecanismos de adaptação à nova cultura. O primeiro foi transportar o sistema de classificação botânico da África e tentar aplicá-lo na flora local e, o segundo, conhecer as espécies nativas encontradas e usá-las em suas práticas. Sendo assim, as religiões africanas no Brasil procuraram uma nova forma de cultuar seus deuses explorando as plantas desconhecidas e importando as já utilizadas na África e outras regiões do mundo. É um novo modo de usar os recursos naturais para que a cultura e religião não se percam da mesma forma que sua identidade social (ALMEIDA, 2000).

Para o Candomblé o mundo vegetal transcende o conceito ocidental. Sua importância desempenha um papel preponderante em todos os níveis de existência, não se limitando apenas ao uso prático, mas se aprofundando na esfera simbólica da religiosidade. Nas liturgias, os vegetais são fontes de axé, a força vital sem a qual não existe vida ou movimento. Sem o axé o culto não pode ser realizado (ALMEIDA, 2000).


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"Árvore Cósmica". Ela é considerada o eixo do mundo (Axis Mundi), a "Árvore da Vida" (ELIADE, 1998), que recebe o alimento do meio imaterial transcendente. Essa simbologia está associada aos processos da fotossíntese e transporte da seiva vegetal, que remete à ligação com a Mãe Terra (mundo físico), de onde retira a água e os alimentos inorgânicos que precisa. Do céu (meio imaterial) capta a energia luminosa invisível para em suas folhas gerar a vida, sob a forma de energia química orgânica, a glicose. A árvore funciona como o meio integrador entre esses dois mundos e transformador dessas diferentes essências, centralizando, ciclano e estabelecendo um meio verticalizado de ascensão ao divino (PONTES, 1998).

A árvore se traduz num símbolo vivo que leva a humanidade ao renascimento e à imortalidade, por dialogar de forma íntima com o céu e a terra, ou seja, entre o meio físico e o sagrado. O arquétipo inclui tanto as de folhas perenes (imortalidade), quanto as de folhas senescentes (regeneração). As árvores sempre verdes, como as oliveiras, ciprestes, cedro e palmeiras, representam a vida eterna e o infinito. Dessa forma, a árvore cria e dá vida, alimentando, protegendo com seus galhos e recriando o espaço sagrado, assim como a mãe que é fecundada, gesta e gera a força vital. O poder feminino associado ao mito neófito da

"Árvore da Vida" se refere ao ato sagrado da maternidade, pois ambos dão continuidade à existência através de seus frutos. A partir dos frutos se obtém a força vital, a esperança de superar a morte com a renovação da vida; das folhas e flores a cura para os males; os ramos e troncos servem para fazer o fogo, além da construção de moradias (PONTES, 1998).


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No Candomblé as árvores (igi) são objetos de culto, sendo tomadas como moradas ( espíritos e de Orixás. As de forma e tamanhos notáveis são consideradas sagradas e suas partes (tronco, galhos, folhas, flores e raízes) são aplicadas em usos ritualísticos rotineiros pela comunidade. Um exemplo é a confecção de atabaques, os aguidavis (varetas utilizadas para tocar os atabaques) e os "emblemas e representações" utilizados por alguns Orixá (MARTINS; MARINHO, 2010).


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As folhas são classificadas em quatro compartimentos: as ewé afééfé (folhas do ar), ewé omi (folhas da água), ewé inón (folhas do fogo) e as ewé ilê ou ewé igbo (folhas da terra ou da floresta). As árvores também são contempladas nesta categoria, pois suas folhas estão ligadas a um dos quatro elementos base (BARROS, 2011). Essas são sagradas e associadas à moradia de suas divindades, adquirindo respeito e importância na visão dada à natureza (LODY, 1992). Mostram o espaço como um lugar sagrado, ou seja, as árvores são consideradas moradas de espíritos e dos Orixás.


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Os iorubás na África e os adeptos do Candomblé no Brasil apresentam ainda um sistema de classificação secundário para organização dos vegetais. As plantas são separadas em dois grupos que incluem: gún (folhas de excitação) e érò (folhas de calma). Essa categorização dá equilíbrio às misturas vegetais quando bem dosadas de acordo com a situação de cada indivíduo. As plantas consideradas gún estão ligadas ao compartimento de fogo ou terra, enquanto que as èrò relacionam-se com os da água ou ar (BARROS: NAPOLEAO. 2009).


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Kileuy e Oxaguiã (2014) mostram que para a sociedade iorubá os abikus são espíritos infantis que vivem em uma sociedade, o Egbé Orum, e que combinam antes do seu nascimento o momento de retornarem ao Orum. Para os abikus esse retorno é desejado e programado como uma forma de voltar ao seu mundo o mais rápido possível.

Abi é nascer e Iku é a morte, ou seja, os nascidos, os sobreviventes da morte é que são os abikus. Uma mulher grávida não deve parar embaixo da sombra de uma árvore ao meio-dia ou à meia-noite. Porque eles habitam o corpo das árvores e é nesses horários que eles têm permissão para sair.


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