Fichamento - Uma ecologia decolonial

 



FERDINAND, Malcom. Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho. São Paulo: Ubu, 2022. (Texto 02).


P. 39


Essa proposta junta-se à insistência dos antropólogos e dos sociólogos nas outras formas de fazer-mundo dos povos originários que não compartilham a fratura ambiental moderna. Entretanto, minha proposta de fazer do mundo o horizonte da ecologia não traduz a ideia da adoção de certas técnicas de relações com o meio, com os ecossistemas, com os espíritos e com os seres humanos. Partindo da pluralidade constitutiva das existências humanas e não humanas na Terra, das diferentes culturas, tomar o mundo como objeto da ecologia é trazer de volta para o centro a questão da composição política entre essas pluralidades e, portanto, de um agir conjunto. Essa abordagem política do mundo, no sentido grego de pólis, tira a ecologia da mera questão do oikos (econômica ou ambiental), pois, ainda que a Terra esteja salpicada de moradias, de espaços férteis de vida e de trocas com ela, a Terra não é a nossa casa. Se esses ecúmenos são fundamentais, não se pode reduzir a Terra a um só oikos global. Isso é trazer a Terra de volta apenas ao âmbito de uma questão de propriedade (de quem é a casa?) – a exemplo da corrida imperial pela apropriação de “territórios” e de “recursos” – e de poder (quem a comanda?), como na Grécia antiga, onde o homem-cidadão subjuga homens, mulheres e crianças da casa e rejeita os estrangeiros. É recair no pensamento violento do território e da identidade-raiz criticado por Édouard Glissant, fazendo da Terra um oikos colonial e escravocrata e conservando o modelo da ecologia colonial.


P. 39

É a partir da instauração cosmopolítica de um mundo entre os humanos, juntamente com os não humanos, que a Terra pode se tornar não apenas aquilo que se partilha mas também aquilo que se tem “em comum, sem possuir de fato”.


P. 40

Se a natureza e a Terra não são idênticas ao mundo, aqui o mundo inclui a natureza, a Terra, os não humanos e os humanos ao mesmo tempo que reconhece diferentes cosmogonias, qualidades e maneiras de estar em relação uns com os outros.


P. 40

O “Homem” nunca agiu nem habitou a Terra, são sempre humanos, pessoas, grupos, conjuntos híbridos humanos /não humanos que agem, que lutam e que se encontram na Terra. Fazer do mundo o ponto de partida e o horizonte da ecologia é essencialmente partir do seguinte questionamento para abordar a crise ecológica: como fazer-mundo entre os humanos, com os não humanos, na Terra? Como construir um navio-mundo diante da tempestade? Tais são as questões que guiam a ecologia-do-mundo.


P. 40

Pensar a ecologia a partir do mundo não pode ter como origem um local fora-do-solo, fora-do-mundo, fora-do-planeta nem se enunciar tendo por base um ser sem corpo, sem cor, sem carne e sem história.


P. 41 

Alcançar o centro da tempestade Essas três propostas – pensar a tempestade ecológica à luz da dupla fratura colonial e ambiental (a arca de Noé), a partir do porão da modernidade (o navio negreiro) e rumo ao horizonte de um mundo (o navio-mundo) – permitem-me aceitar o convite preliminar de Aimé Césaire para “alcançar o centro da tempestade”. Alcançar o centro da tempestade não é a busca de uma calmaria temporária para os males do mundo. No olho do ciclone, se prestamos atenção, podemos ouvir os berros dos deixados-para-trás da hecatombe.







Comentários

Postagens mais visitadas